"E se o socialismo estiver tão moderado no tocante a luta de classes e a propriedade particular, que já não mereça nisto a mínima censura?

Terá renunciado por isso a sua natureza essencialmente anticristã? (...) Socialismo religioso, socialismo cristão, são termos contraditórios: ninguém pode ao mesmo tempo ser bom católico e socialista verdadeiro. (...) Para lhes respondermos, como pede a Nossa paterna solicitude, declaramos: o socialismo, quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como ‘ação’, se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de se aproximar da verdade e da justiça nos pontos sobreditos, não pode conciliar-se com a doutrina católica, pois concebe a sociedade de modo completamente avesso a verdade cristã. (...)" ( Pio XI, Quadragesimo Anno, nos. 117, 119 e 120)

O economista austríaco Ludwig Von Mises afirmou: "O socialismo não fracassou por causa da resistência ideológica — até hoje, a ideologia dominante é a socialista. Fracassou pela sua inviabilidade”. Este fato pode ser constatado com muita facilidade se conversarmos brevemente com os nossos jovens, sobretudo os que frequentam os cursos de Ciências Humanas nas diversas faculdades espalhadas pelo nosso imenso país. Muitos deles receberam educação católica e estiveram em nossas paróquias por um bom tempo, mas a semente da fé plantada em seus corações terminou sufocada por essa ideologia completamente hostil à verdade do Evangelho. Diante desse quadro, vem-nos a pergunta: como um sistema que causou (e continua causando) tantas matanças, sofrimento, fome e que colecionou monstruosos fracassos históricos ainda pode exercer tamanha sedução sobre nossos jovens? A resposta oferecida por Von Mises tem precisão quase cirúrgica: a ideologia socialista segue viva e continua a ser amplamente ensinada como verdade absoluta em muitas escolas e universidades. A isso se acrescentam a ignorância e desinformação reinantes quando o assunto é a atualidade do socialismo (mesmo após a queda da URSS): sua sobrevivência e influência em muitos partidos e projetos políticos. No século XX, alguns teóricos socialistas, como o italiano Antonio Gramsci e os alemães da Escola de Frankfurt, tomaram a decisão de priorizar a revolução cultural sobre a reformulação econômica, adiando esta última. Esta estratégia tem sido tremendamente vitoriosa e seus efeitos são muito visíveis, como já dissemos. No presente artigo, trataremos das bases ateístas e antirreligiosas da doutrina socialista e de suas contradições com a fé da Igreja. É muito importante rastrear e estudar a genealogia das ideias, afinal, como bem disse Hugo von Hofmannsthal: “nada está na realidade política de um país que não esteja antes na sua literatura”. Nos próximos artigos, falaremos dos rumos e mudanças do socialismo enquanto pensamento e também como movimento político ao longo do século XX e neste início de século XXI.

A religião como alienação

 

Karl Marx (1818-1883), o pai do autoproclamado “socialismo científico” (que seria, segundo ele, o único caminho viável para se alcançar o comunismo: sociedade igualitária sem classes sociais) afirma, com base em Feuerbach, que é o homem que cria Deus e não vice-versa. O ser humano transfere para Deus a responsabilidade de pôr fim às injustiças. Como Deus só poderia fazer isso na vida eterna, o homem, aqui e agora, acaba se conformando com a exploração de que é objeto: “a religião é o ópio do povo”. Contudo, essa alienação de nosso ser, projetado em um Deus imaginário só ocorre porque a existência real na sociedade de classes impede o desenvolvimento e a realização de nossa humanidade. Bastaria, pois, que eliminássemos as desigualdades sociais para que a necessidade de um Deus sumisse dos corações humanos. Disso deriva que, para superar a alienação religiosa, não basta denunciá-la, mas é preciso mudar as condições de vida que permitem à “quimera celeste” surgir e prosperar. Diz Marx: “A miséria religiosa é a expressão da miséria real em um sentido e, em outro, é o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o sentimento de um mundo sem coração, o espírito de situações em que o espírito está ausente. Ela é o ópio do povo”.

O socialismo é, portanto, inimigo de Deus e das religiões organizadas, além de essencialmente materialista, por negar à vida humana qualquer caráter espiritual e transcendente. Trata-se, para usar uma expressão de Eric Voegelin, de uma “religião política”, em que o sentido sobrenatural da vida humana, uma vez considerado alienante, é trocado por um simulacro de narrativa de redenção, com a promessa de um paraíso político. Por isso, a ideologia é naturalmente violenta e revolucionária. A crítica ao céu catalisa o ânimo revolucionário na terra.

Ora, é evidente que essa crítica à religião se trata de um pensamento metonímico, isto é, a parte passa a ser considerada como se fosse o conjunto. O filósofo italiano Giovanni Reale, com muita perspicácia, aponta o erro de Marx: “(...) também não podemos aceitar a teoria marxista segundo a qual ‘a religião é o ópio do povo’. Essa teoria é discurso de um fiel de outra religião. Com efeito, o marxismo clássico confundiu um tipo de organização eclesiástica histórica com a religião em si e com todas as religiões. Assim, absolutizou um fato histórico. A consciência religiosa não é reacionária em si mesma; ela não afasta por si mesma os olhos dos homens desta terra; ela não é em si mesma o ópio do povo”. De fato, uma breve análise da história da nossa civilização nos faz notar que são abundantes os exemplos do legado social deixado pela religião: a moral familiar, o conceito de pessoa, os direitos individuais, a preservação da cultura, o patrimônio artístico e literário, as instituições caritativas e um longuíssimo etcétera, a ponto de Nicolás Gómez D’Ávila afirmar: “Despido da túnica cristã e da toga clássica, nada resta do europeu além de um bárbaro pálido”.  A consciência de que o nosso destino eterno depende do que fazemos aqui e agora, longe de ser uma força alienante, sempre colocou os homens em atitude de vigilância constante sobre as próprias ações. A visão da religião como mero instrumento mediante o qual a classe dominante neutraliza as energias revolucionárias da classe dominada é um reducionismo inaceitável. Quem pode negar o papel da religião como a grande força viva e atuante na história que leva a comunidade humana a garantir a sobrevivência dos fracos e doentes? Chesterton, um grande escritor católico do século passado, também aponta este grave erro de compreensão: "Para a religião, todos os homens são iguais assim como todos os centavos são iguais, pois só há valor neles porque carregam a imagem do Rei. Este fato não é suficientemente observado no estudo dos heróis religiosos. A piedade produz grandeza intelectual precisamente porque ela é indiferente à grandeza intelectual. A força de Oliver Cromwell (Lorde protetor da Inglaterra no séc. XVII) residia no fato de que ele se importava com a religião. Mas a força da religião é que ela não se importa com Cromwell, não mais do que com qualquer outra pessoa. Ele e seu séquito são igualmente bem-vindos aos lugares quentes e hospitaleiros do inferno. Tem sido afirmado, muito acertadamente, que a religião é a coisa que faz o homem ordinário se sentir extraordinário; é uma verdade igualmente importante que a religião é a coisa que faz o homem extraordinário se sentir ordinário”.

Karl Marx, na prática, substitui Deus pela política. No tribunal da História, percebemos com pesar que, onde Deus deixa de ser adorado, o Estado ocupa o seu lugar. Os efeitos dessa inversão foram e continuam sendo funestos. O filósofo alemão tem como pressuposto de toda sua filosofia uma visão limitada, parcial e preconceituosa sobre o homem. Entende-o como um ser essencialmente econômico e que pode ser satisfeito com o bem-estar material, deixando com isso de sentir a necessidade de “criar um Deus” para o seu conforto. Eis aí um gravíssimo erro antropológico, que ignora o problema da morte. O homem de Marx é alguém com uma dimensão a menos, um ser simplificado, amputado. É um homem inexistente. O Papa Bento XVI, em sua magnífica obra “Dogma e Anúncio”, escrita enquanto ainda era cardeal, desfere duros golpes contra essa concepção materialista sobre Deus, o homem e a História: “Apenas quem está tão farto que pode ter tudo o que deseja, nota como tudo é pouco. Quando todos os homens tiverem tudo o que desejam, ainda estarão longe de ser felizes. Pelo contrário, o mundo ocidental de hoje prova que é então que eles são totalmente infelizes, que então apenas começam os seus problemas. Nesse sentido, o homem não pode ser remido por meio de pão e dinheiro. Ele tem fome de alguma coisa a mais. A fuga para os entorpecentes, que agora se torna um fenômeno de massa, mostra-o até a evidência. O homem precisa de sentido, não menos do que de pão. Durante todos os séculos, a Igreja deu aos homens uma consciência da sua dignidade interna que ninguém lhes pode tirar; com a esperança da fé, deu-lhes um sentido que os fazia ricos e livres. A tolice de designar tudo isso como ‘ópio para o povo’ aparece numa situação em que o povo, de fato, toma ópio, precisamente porque tem a prosperidade que deveria tornar supérfluo esse ópio”.  

Quando, estudando a história recente, lançamos o nosso olhar para os inúmeros massacres perpetrados por governos marxistas contra a liberdade religiosa, engolida no furor revolucionário, não podemos ser ingênuos a ponto de pensar que são somente desvios pontuais de conduta, sobre os quais se responsabilizam apenas os líderes políticos que os promoveram, mantendo assim intacta e imaculada a doutrina de Karl Marx. Na verdade, o que se viu na história é a consequência lógica e inevitável da aplicação das próprias ideias do filósofo alemão. O pai do socialismo é um inimigo pessoal de Deus e da religião. (continua na próxima edição)

 

Vitor Gomes Coelho Júnior – professor de Filosofia 

 

 

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